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segunda-feira, 11 de maio de 2009

Kiss and don't tell

Toda a gente sabe que eu sou louca, sou doida, estranha, irracional quando não devo, que me deixo levar em jogos e brincadeiras que chegam a rondar a barreira do perigo. E que já grande parte das pessoas não sabe, é que, por vezes, eu abuso nesses jogos, brinco com o fogo e, no fim, queimo-me de uma forma que, realmente não estava à espera.

E se fosse apenas queimar, era uma coisa, mas a maneira como me queimo, como deixo o fogo alastrar e consumir mais e mais pele, corpo, alma, chega a ser uma coisa completamente insana, mas fabulosamente sensorial. Por outras palavras, eu gosto de me queimar, mesmo sabendo que, após o prazer louco, vem a dor ou a loucura. Sim, eu devo ser masoquista.

Sexta à noite, Le Cab, um pub do centro da cidade. Eu estava sentada numa mesa com um grupo de amigos, todos animados, apenas a "aquecer" antes de ir para a pista de dança. Havia cosmos em cima da mesa e algumas outras bebidas já quase no fim. Nós ríamos e conversávamos e implicávamos uns com os outros. A noite estava a ser fantástica.

Até que, por entre a multidão, eu vi Ari a aproximar-se. Foi completamente estúpida a sensação de butterflys no meu estômago e, como típico clichê, eu peguei no meu copo, bebi um gole do líquido vermelho e desviei o rosto para o outro lado. Há algum tempo que nós havíamos começado um jogo de troca de olhares e de provocações. O problema era que isso começava a mexer demasiado comigo, mas era tarde para desistir.

Ari cumprimentou todos os presentes e sentou-se à minha frente, com os olhos cinzentos colados em mim e aquele sorriso filho da puta nos lábios. Sabia o que se passava na minha cabeça, eu tinha a certeza disso, mas o pior era mesmo o facto de eu ser a única que via aquilo. Seria possível que mais ninguém conseguia ver o clima quente que existia entre Ari e eu? Olhei para o lado. a sentir-me uma adolescente, a perceber que o fogo estava demasiado perto e que eu ia queimar-me naquela noite. Era isso que eu vira naqueles olhos cor de prata: ambição, calor, problemas!

Mia levantou-se e puxou-me para a pista de dança. Eu agradeci por aquela escapa, mas sabia que no meio da multidão, os problemas chegavam mais rápido e de forma a que ninguém os visse. E eu não queria que eles chegassem, não assim, como uma simples aventura. Não quando eu sabia que isto era tudo menos um jogo de sedução. Havia mais... eu simplesmente sabia-o.

A confusão da pista de dança, a música demasiado alta, os corpos de encontro uns aos outros, os toques, as sensações, os sentidos e o álcool faziam aquele momento. Ari dançava atrás de mim, de costas para mim, com o corpo colado ao meu, arrepiando-me de cada vez que a sua pele tocava a minha. Em pouco tempo, eu estava completamente arrasada com aquele jogo. Eu estava queimada e queria mais, muito mais do que o que poderia haver naquela pista de dança. Segurei a mão de Ari, virando-me levemente de forma a criar contacto visual por míseros segundos, o suficiente para que percebesse o que eu lhe dizia.

Larguei a sua mão e afastei-me da multidão, saindo a pista de dança, contornando o bar e entrando no quarto de banho. Estava uma pessoa lá, a retocar a maquilhagem, prestes a deixar o cómodo vazio. Aproximei-me do espelho, apoiei as mãos sobre o balcão de mármore e suspirei. Chegara ao ponto de não retorno. Ouvi a porta a bater, indicando que a mulher que lá estava tinha saído e, após um arrepio, não me admirei de ver os olhos cinzas de Ari a encararem-me pelo reflexo do espelho. Vi o sorriso alargar na sua face e senti a forma leve como passava a ponta dos dedos sobre as minhas costas desnudas.

- Ari... - sussurrei, sem tirar os olhos do seu reflexo. - Sabes o que vem depois, não sabes?

- Há muito que deixou de ser um jogo, certo, Roxx? - murmurou, subindo a mão até ao meu ombro e virando-me para si, encarando-me directamente.

- Há muito que passou a ser um pecado - respondi, com o mesmo sorriso ladino no meu rosto, afastando uma mecha de cabelos negros da frente dos seus olhos.

Ari não respondeu, limitou-se a aproximar-se de mim, roçando os lábios nos meus, borrando o baton vermelho de propósito, afastando-se o suficiente para me olhar nos olhos e esperar uma reacção. Reacção essa que foi voltar a colar os nossos lábios, começando um beijo intenso, louco, fugaz e selvagem, que certamente iria levar a algo mais.

Abri os olhos no dia seguinte de manhã, com uma leve dor de cabeça e as imagens da noite anterior na mente. Passei uma mão sobre os olhos, sentindo mexerem-se a meu lado. Virei o rosto para o lado vendo os cabelos negros de Ari espalhados pela almofada e a estranha serenidade da sua expressão. Mordi o lábio, sentando-me na cama, e levando as mãos à cabeça. Era uma confusão enorme na minha mente e eu, lamentavelmente, não conseguia pensar ali. Levantei-me, vesti-me e, com um último olhar cobarde, sai do quarto, deixando apenas um bilhete com uma frase escrita, esperando que Ari me perdoe esta fuga.


Roxx

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